Trabalhar de Graça

OK, este é um assunto meio peganhento.
Falar de dinheiro é sempre meio peganhento, né?
Mas pelo que me é dado a perceber, é um assunto que afecta toda a gente.
Principalmente médicos, advogados e empreendedores que estejam a lançar uma nova ideia de negócio.
A peganhice: quando nos pedem para trabalhar/dar conselhos de graça.

Quanto conhecemos informalmente um médico/advogado/psicólogo, acho que somos assomados por aquela vontade incontrolável de tentar descobrir uma resposta rápida a uma questão antiga, que nos atormenta há tanto, e assim de repente, encontramo-nos cara a cara com a pessoa que tem, dentro da sua cabecinha, a chave para o fim de todas as nossas preocupações.
Toca a perguntar!

Um fenómeno semelhante acontece aos empreendedores, principalmente nas áreas de comunicação, marketing, design. Aquelas áreas em que toda a gente acha que sabe fazer o que os empreendedores fazem, não interessa os anos de formação, experiência profissional, suor e lágrimas, e talvez até o consigam fazer melhor!
("porque na realidade você só carrega num botão e o relatório sai, né?" - pergunta verídica colocada por um presidente de conselho de administração, relativamente à realização de um relatório de satisfação de utentes, que incluía recolha e tratamento de dados estatísticos e produção de 9 relatórios diferentes).

Quando estes empreendedores se lembram de lançar um projecto inovador/diferente, o fenómeno desenvolve-se em duas fases:

1. Fase "Mas isso é fantástico!"
Esta fase acontece no início do projecto, quando andamos a bater às portas que nos parecem correctas, a tentar divulgar o que este cérebrozinho diligente se lembrou de inventar.
As reacções, que nos enchem a alma sem dúvida, andam sempre à volta de:

"Mas isso é fantástico! Era mesmo isso que estava a faltar! Vocês vêm preencher uma lacuna no mercado, que já tinhamos identificado há muito. Mas não temos mãos a medir, não conseguimos apagar todos os fogos, ainda bem que vão lançar esse projecto. É, sem dúvida, a melhor bolachinha do pacote"

O palavreado pode variar, mas o tom anda por aqui.

2. Fase "Vamos estabelecer uma parceria"
Esta fase acontece imediatamente a seguir à anterior.
É quando começam a aparecer os convites para tudo e mais alguma coisa: cafés, conversas, palestras, workshops...

E é nesta fase que acontece o "fenómeno do choque": quando se apresenta um valor e do outro lado quase que ouvimos o abrir da boca e o levar da mão ao peito, em choque e surpresa, (mesmo por e-mail dá para ouvir), porque
"na realidade não temos orçamento para isto, estávamos à procura que vocês fizessem isto de graça, assim em modo parceria".

Ora bem, eu não tenho nada contra parcerias.
São óptimas e fantásticas, desde que realmente vantajosas para ambas as partes.

Também não tenho nada contra voluntariado: faço-o regularmente desde 2004 e até já passei um ano na India a fazer trabalho voluntário.

Agora, um projecto profissional não é só feito de parcerias grátis, nem é um projecto de voluntariado.
É um empreendimento, que gasta tempo e trabalho e que, tendo qualidade, deve ser remunerado.

O que acho mais curioso ainda, no meio de tudo isto, é que, regra geral, as criaturas que avançam com estas "propostas" não trabalham elas de graça. Nem estão à espera que o patrão delas lhes sugira um dia destes "uma parceria".

Enfim, parece que o problema é de âmbito global.
Encontrei este vídeo da fantástica Marie Forleo (aliás, não encontrei, encontraram-no por mim, e aqui fica o link para o blog d'A Psicóloga Isabel Filipe, a quem se deve o achado - assim em modo "parceria").

Neste vídeo, a Marie Forleo dá algumas dicas de como nos esquivarmos às pessoas que querem tomar um cafezinho e estabelecer este tipo de "parcerias" que sabemos não vão chegar a lado nenhum.

O melhor conselho dela, para mim é:
"Se queres que as pessoas valorizem o teu tempo, tu tens que lhe atribuir um valor".

Boa visualização!

4 comentários:

  1. Siiiim! Finalmente alguém diz as coisas como elas são!

    Eu não vejo problema em ajudar amigos próximos, desde que o façamos de livre e espontânea vontade. Mas este tipo de 'olha, podias tirar-me aqui umas fotos para o facebook' ou 'se eu te pedir para fotografar o baptizado do meu filho tu não levas dinheiro, pois não?' (especialmente vindos de amigos que não nos falam há anos) são inacreditáveis. O problema é que é uma situação é tão desconfortável (especialmente na maneira de ser portuguesa, que tende a ser ligeiramente servil e levada avante pela culpa) que eu compreendo quem não consegue dizer que não (eu incluída). :/

    Mas é sempre bom ver que há mais gente que compreende isto. :D E o vídeo é brilhante!

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  2. Obrigada pelo comentário Luminous!
    Realmente esqueci-me de incluir as fotógrafas, mas que se inserem bem na categoria dos empreendedores.
    Temos que pôr a mão na anca e ter uma conversinha com a culpa (e o fado, e o vai-se andando...) :)
    Obrigada pela participação!

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  3. Adorei o texto Teresa! E muito obrigada pela referência :-) Acho que este tema assola muito mais profissões do que pensamos... Concordo também com a Luminous, há sempre uma tendência para achar que o amigo (nestas alturas já serve também o conhecido do amigo), tem quase o "dever" de trabalhar (sim, trabalhar...) de graça! Ora não se cobra aos amigos!! (Pois não, dinheiro não, mas trabalho já se pode cobrar sem qualquer tipo de culpabilidade...). Quanto ao modo como a Teresa descreve este flagelo, acho que está brilhante. A ideia inovadora (e que provém de um cérebro que teve de trabalhar para a mesma...) é sempre recebida de forma maravilhosa, sendo que o orçamento para isso é que nunca está disponível... Já me aconteceu até, numa entrevista de emprego, perguntarem como é que eu resolveria um problema muito específico. Não era qualquer tipo de teste psicotécnico nem de dinâmica castiça, era pura e simplesmente "pick your brain" ao seu mais alto nível. Há que ultrapassar uma culpa que está depositada do lado errado da parceria.
    Obrigada pela partilha!

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  4. Olá Psi Isabel! Obrigada pelo comentário!
    Isso de resolver problemas em contexto de entrevista de emprego, também já me aconteceu: na altura tive que fazer um guião completo para um programa de televisão...!
    Aquilo foi mais uma sessão de brainstorming gratuito do que outra coisa.
    Parece que nos cabe a nós mudar o mundo! No worries :)

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