Sair da própria cabeça...

Eu tenho esta tendência para o dramático.
Desenvolvida sem dúvida, depois de uma paixão assolapada, que durou anos, por cinema, com duas e três idas semanais às salas escurinhas, para ver - muitas vezes mais do que uma vez - um filme qualquer, sem grande discriminação.
Deve ser com certeza, o primeiro e mais importante factor de desenvolvimento desta minha tendência para o drama. Com certeza que haverá outros elementos hereditários à mistura, mas esses são para o sofá do psicanalista.



Ora esta minha tendência para o drama manifesta-se diáriamente. Sempre que alguma coisa não corre como esperado - ou mesmo que corra - o cérebro entra em modo piloto automático e lá vai ele, fazer o seu filme, normalmente bolywoodesco.

A amiga atrasa-se uns minutos e começa logo o rol de justificações alternativas ao motivo pelo qual está atrasada: presa no trânsito > teve um acidente > já não gosta mais de mim > morreu alguém na família > foi raptada pela máfia colômbiana.

Sim, os filmes não têm propriamente que fazer sentido, nem que ter justificação lógica (se bem que a máfia colômbiana pode perfeitamente vir passar umas férias à termas do Gerês ou vir explorar novos mercados na noite do Porto, tão em voga internacionalmente).

Não me respondem ao e-mail: não o receberam > receberam mas desataram-se a rir > acharam o e-mail rídiculo > já não gostam mais de mim > vou ser proibida pelo Alto Conselho da WWW de enviar e-mails

Naturalmente, mais cedo ou mais tarde, lá vem a explicação lógica e natural para o caso e o filme cai por terra - graças aos santos - e eu lá fico mais aliviada. A amiga atrasou-se porque sim. A resposta ao e-mail demorou porque as pessoas têm outras coisas para fazer.

Isto tudo para dizer que às vezes é preciso sair de dentro da nossa cabeça onde estas curtas ou longas metragens acontecem, e vir cá fora respirar o ar puro, ouvir os passarinhos e cheiras as flores.


Há mil e uma maneiras de se sair da nossa cabeça. Há cerca de 478,000,000 resultados no Google.
As sugestões vão desde dançar, meditar, fazer e receber massagens, a deixar de tentar impressionar o mundo, encontrar um propósito ou ajudar outra pessoa.

Eu cá vou de férias :)
Até prá semana!

A Decoração e o Auto-Conhecimento

Eu nem me importo de esperar nos consultórios, desde que haja revistas.
A escolha das magazines em cima da mesa da sala de espera, permite ter uma ideia de quem frequenta aquele espaço e de quem o abastece com material de leitura.
A espera antes da consulta, é uma excelente oportunidade de recuperar as leituras em atraso da Maria, Nova Gente, Cosmopolitan e outros mananciais informativos nacionais.

Mas há salas de espera e salas de espera.
No outro dia, num destes momentos de espera/leitura veio parar-me às mãos uma Psychologies espanhola, com um destaque na capa sobre decoração.

Confesso que à primeira me foi um bocadinho difícil fazer a ligação entre Psicologia e Decoração, mas este dossier especial, falava muito sobre a casa/lar:

  • o que procuramos nela;
  • o que encontramos;
  • como podemos torná-la mais confortável
Havia uma imagem, com um pequeno destaque no canto, que me chamou a atenção (perdão pela foto, mas nem o telefone, nem a luz da sala, nem a posição ajudaram...)

"O modo como organizamos e decoramos a nossa casa, é o reflexo fiel de como vivemos a vida"

Veio-me logo à ideia a tendência que tenho, e que me dizem vir da minha avó materna, de andar sempre a mudar a casa (ou a fazer planos para isso: E se o escritório passasse para o quarto e o quarto para o escritório?)

Uma das grandes dificuldades que a auto-análise tem, é precisamente a dificuldade de sermos objectivos connosco próprios. Porque somos muitos complicados complexos, porque conseguimos justificar o sim e o não para cada caso, porque a vida dos outros é que é fácil de analisar, catalogar e resolver.

Ora esta perpectiva de podermos olhar para algo tão objectivo e palpável como seja a decoração e organização da nossa casa e daí retirarmos ilações sobre como estamos a viver a nossa vida, parece-me uma pequena ajuda para superar a falta de objectividade na auto-análise.

É claro que também nos pode encher de um nervoso miudinho da próxima vez que passarmos a ombreira da porta, como se para qualquer canto que olhemos uma revelção assustadora nos salte à consciência...!

Então e como é a minha casa/vida?
Precisa de uma análise mais aprofundada, mas assim à primeira:
  • é vintage restaurada, com um charme muito próprio
  • cheia de luz e pêlo de cão
  • com muita cor (há uma divisão que tem uma parede de cada cor)
  • desarrumada
  • a precisar de uns pequenos grandes ajustes para ficar mais apresentável
  • cheia de orquídeas e almofadas (ou seja, exótica e confortável, claro!)
  • sempre em estado de potencial mudança
  • onde não cabe toda a gente da minha vida, mas com potencial para se arranjar espaço
  • muito fotogénica :)






E a tua, como é?

Desmeditar

A Meditação, o Zen, o Neo- Espiritual estão na moda
Mesmo que não estivessem, o trabalho da marca pessoal para também por um conhecimento profundo de si próprio, que pode ser alcançado através de vários meios - cada um sabe o que funciona para si - incluindo estes.
Mais ainda, como já tinha anunciado há uns tempos atrás, este é, para mim, o ano ZEN, de tentar despreocupar e destressar, estando mais presente no momento de agora e menos preocupada com o que vai acontecer amanhã ou a remoer o que aconteceu ontem.



Neste sentido, ando a tentar meditar.
O que me stressa infinitamente.
Primeiro, porque acho que a solução para todos os meus problemas, passaria pela disciplina de me sentar 20 minutos, todos os dias no mesmo local, e meditar (seja lá isso o que for).
Depois, porque falho diariamente na prossecução desse objectivo.
E diariamente me "dou na cabeça" por não ter conseguido, mais uma vez, fazer aquilo que é "A solução para todos os meus problemas".

Eis se não quando surge um curso de meditação, anunciado pela minha professora de Yoga, com o seu Mestre brasileiro.
Inscrevo-me e no dia e hora marcados, estou lá, preparada para um dia de Ohms e Ahms sonoros e alterações interiores.

A primeira coisa boa que aconteceu, foi que, numa plateia de cerca de 50 pessoas, todos partilham deste mal de não conseguir parar para meditar. É tão bom saber que não estamos sozinhos...!

A segunda coisa boa/surpreendente foi que o Mestre mais que um yogi barbudo e tranquilo que nos guiaria em meditações previsíveis, era um provocador que, em vez de explicar verbalmente, nos fazia sentir o que tentava explicar. E continuou a provocar até ao fim (tenho a certeza que houve gente que pensou em não aparecer de tarde...)

A terceira coisa boa, foi que a mensagem principal do curso surgiu como que uma resposta às minhas preces. Parafraseando o Mestre, eis a moral da história:

- a malta já é neurótica o suficiente, sem ter que acrescentar a neurose diária do "eu tenho que meditar, eu tenho que meditar, eu tenho que meditar";

- a meditação é um estado e não um processo, e como tal não se ensina, porque não pode ser ensinada, da mesma forma que não se pode ensinar alguém a amar;

- o caminho para este estado deve ser percorrido diariamente, nos diferentes momentos do dia, sem que para isso tenhamos que nos sentar num cantinho tranquilo com velas e incenso a queimar. É apenas necessário: prestar atenção à respiração + tentar não criticar

E isto, que parece tão simples, é simplesmente tão complicado.
Imagino que quando dominar estes talentos complicados (atenção à respiração e não criticar) que outros níveis se abram e outros desafios se apresentem. Mas até lá o caminho é longo.

Por isso, a todos vocês que querem meditar e relaxar e entrar em modo Zen, aqui ficam estes conselhos para primeiro Desmeditar, remover todas as ideias pré concebidas e indutoras de neuroses, para depois começar a caminha na direcção certa.

Boa viagem!

Personal Sound System Guy

Ontem cruzei-me com uma criatura que já não via há uns tempos: o homem do personal sound system.
Aqui há uns meses (ou anos? o tempo tem andado meio acelerado ultimamente) atrás, havia muitas destas criaturas no Metro do Porto. Principalmente adolescentes, com os seus super telemóveis, a difundir as suas questionáveis escolhas musicais por toda a carruagem.
"Quem não gosta, que mude de lugar" imagino que fosse a lógica.



Como entretanto deixei o Metro, deixei de ver estas criaturas musicais.
Até que eis se não quando, ontem, a caminho do ginásio me cruzo com mais um destes espécimes sonoros. Este já devia ter sido adolescente há umas valentes décadas atrás, vinha meio curvado pela rua fora, com a pele bronzeada, mais provavelmente de dias de trabalho ao ar livre do que de tempo passado na praia, e com o seu super sistema de som a passar uma musiquinha brasileiro-pimba para todos os que se cruzassem com ele ouvir.

Ora, nestas andanças das marcas pessoais e nesta época tão propícia a epifanias, fez-se luz neste meu cérebro: poderia este se eventualmente, mais um excelente elemento do kit da marca pessoal?
Porque não expressar quem somos, quem queremos ser, com uma pequena banda sonora partilhada?
E se em vez de ser considerado "pimba", esta fosse uma prática bem aceite por esta sociedade que nos rodeia?
Será que ao passarmos pela Boavista em hora de entrada nos escritórios, nos deparariamos com uma maravilhosa cacofonia musical, escolhida e composta pelos auditores/juristas/analistas de dados que por ali trabalham?
Será que diferentes zonas da cidade teriam diferentes estilos musicais?
Seria possível que todos os sons de uma determinada área criassem uma atmosfera musical própria?
Enfim, estou a filosofar...

Mas só mais uma pergunta: nesta realidade alternativa, qual seria a tua banda sonora de eleição?

Ser artista e vender: conselhos

Somos todos artistas, não?
Poética e metaforicamente, quanto mais não seja, gosto de imaginar que sim.
Que todos temos uma veia artística que nos leva a criar "coisas" bonitas, úteis, agradáveis, que fazem os outros pensar, desconfortáveis, com propósito.
Mantendo o modo poético, gosto também de pensar que esta veia artística não se limita a pintar, escrever, esculpir ou compor.
Gosto do conceito de arte em sentido alargado àquilo que é feito com paixão e intenção de melhorar, ajudar ou provocar, seja uma escultura ou um bolo de cenoura.

Esta epifania veio ao consultar um artigo no site deste senhor - Jonathan Fields, mentor do Good Life Project.

Uma das últimas entrevistas que ele realizou foi precisamente com uma artista de São Francisco que tem uma preocupação genuína: ajudar os artistas a descobrir formas de ganhar dinheiro com a sua arte.

Parece que todos temos que comer e andar vestidos e os deuses da inspiração, por si só, não conseguem colmatar todas as necessidades humanas.
Daí a quase obrigação que os artistas têm (ou precisam de ter) em tornar a sua expressão artística em algo rentável/sustentável.

Aqui ficam alguns dos conselhos desta senhora - Lisa Congdon, também ela artista - expressos no seu livro "Art, Inc." (tradução livre e nada influenciada: Arte, Marca Registada).



Como todos somos artistas, creio que estes conselhos se podem aplicar à vida de todos nós artistas-profissionais-freelancers-contabilistas-fotógrafos-psicólogos-designers-..., ou seja, todos os que precisamos de uns pingos de criatividade para colorir este dia-a-dia:

1. Descobre a tua Voz
A Voz do artista é uma mistura de mensagem, estilo e técnica e é a sua oportunidade de marcar o Mundo.
Todos temos diferentes formas de encontrar a nossa Voz. 
Infelizmente não é nada que se possa aprender lendo um livro ou frequentando um workshop.
Pode ser uma descoberta que demora uma vida, um processo contínuo de descoberta e reinvenção, que se vai alterando ao longo do tempo.

2. Cria Arte para Ti Próprio
Há uma noção errada de que existe uma "maneira correcta" de pintar um quadro, tirar uma fotografia, escrever um artigo... de que existe um modelo e processo correctos que devem ser seguidos por todos.
É bastante libertador começar a produzir trabalhos que reflectem a tua própria identidade e estética e não a identidade do teu mestre ou colegas.

3. Arrisca
Pode parecer assustador, mas fazer algo de diferente (por muito pequena que seja essa diferença) pode abrir novas avenidas para o teu trabalho. Usa cores diferentes, muda de estilo narrativo, ...
O resultado destes riscos será o que vai diferenciar o teu trabalho.


4. Ultrapassa as Dificuldades
A famosa "curva de aprendizagem" existe para todas as áreas e se tivermos a sorte de andar constantemente a aprender, então é melhor que nos habituemos a surfar essa onda.
Ultrapassar as dificuldades ajuda ao aperfeiçoamento da técnica e à descoberta da própria voz.

5. Descobre o que te Inspira
A inspiração nem sempre aparece do nada.
Às vezes é preciso ir à procura dela! 
E a inspiração normalmente está escondida nas coisas que gostamos de fazer, mesmo que não tenham nada a ver com o nosso trabalho "artístico".
Para ultrapassar as ansiedades e ajudar a descobrir o que impulsiona o teu interesse ajuda andar de diário no bolso: algo portátil, fácil de carregar de um lado para o outro, onde podes escrever, desenhar tudo o que te apeteça/mexa contigo/te inspire.
Mais uma vez, a forma não é importante: não interessa se tem linhas, se é quadrículado, se a capa é cor de rosa ou se as folhas têm cheirinho a maçã. Interessa ser usado todos os dias, durante o tempo que tiveres disponível, seja 5 minutos ou 1 hora.

6. Faz uma Pausa da Internet - a minha preferida!
São tantas as distrações e é tão fácil o acesso.
É um excelente sítio para divulgar e vender trabalho, mas também pode levar a que nos comparemos em exagero com outros artistas.
Despertamos o crítico dentro do cérebro e lá se vai a produção e a auto-confiança.
Também acho que podemos encontrar inspiração na internet, mas procurá-la fora da web é tão mais interessante...!

7. Separa-te do trabalho de outros Artistas
Para esculpir a tua Voz Artística é preciso que te afastes do que achas que é um "trabalho de sucesso".
Sem esta separação, corre-se o risco de copiar em vez de criar algo que seja genuinamente novo e nosso.
Mais uma vez: desliga a internet. É fácil ser apanhado no burburinho das redes sociais e expectativas e influências exteriores.
De vez em quando, desliga e ouve o teu guia interior.
Passa a conhecer o teu âmago, o que te inspira e impulsiona a tua criatividade.

Bom trabalho!

Vulnerabilidade: tens coragem?

Este vídeo é lindo.
Há pouca coisa que seja publicada pelo TED que não seja linda, fantástica ou que, pura e simplesmente não nos deixe de queixo caído no chão.

Este vídeo é um acto de coragem.
Durante cerca de 7 minutos, a cantora Australiana Megan Washington, expõe perante uma plateia gigantesca (gi-gan-tes-ca!) a sua vulnerabilidade: a gaguez; e enfrenta o seu maior medo de morte: falar em público (que pelos vistos não é só dela, já que se mostrou por várias vezes que a generalidade das pessoas tem mais medo de falar em público do que de morrer).

É preciso coragem, sem dúvida, para expor de uma forma tão pública, tão honesta, quase cândida, o que consideramos ser a nossa maior vulnerabilidade.

É preciso coragem para deixar que o mundo veja que afinal não somos perfeitos.
Para deixar que esta exposição, quase nudez, fique registada numa plataforma que tem milhares de vizualizações pelo mundo fora.
É preciso coragem, para pegar naquilo que sempre nos fez sentir vergonha de nós próprios, que nos atormenta a alma desde criança (e como são terríveis as tormentas da infância), aquilo que tentamos difarçar para que os outros não se riam ou não gozem connosco; pegar em tudo isto e dizer ao mundo: é assim que eu sou, não consigo nem quero ser de outra forma!

Não sei se teria coragem. E tu?

Resolução de conflitos: as 3 verdades

De vez em quando apanho-me imersa em conflitos.
Conflitozinhos, claro, do dia-a-dia, nada de invasões territoriais de outras nações, nem tiros de espingarda de uma varanda para a outra. Cá o bairro é (relativamente) sossegado.
Mas eu odeio conflitos.
Houve uma altura em que gostava, em que tirava prazer da adrenalina de discutir com outra pessoa, gritar apresentar os argumentos e chegar à unica conclusão possível: a minha.

Hoje perdi esse gosto.
Ainda bem, por um lado, que isto de viver de confusões não deve fazer muito bem à alma.
Ainda mal, por outro, pois os conflitos estão presentes em quase todo o lado e darmo-nos de caras com um é apenas uma questão de tempo.

Tendo abandonado a técnica dos gritos (ainda praticada amplamente um pouco por todo o país), há uma técnica, ou melhor, perspectiva, que me ajuda a manter a calma e o tom de voz baixo, quando me encontro nestas indesejáveis situações. As 3 Verdades.

Acredito piamente (de véu na cabeça, vela acesa e tudo), que para qualquer situação que seja, existem 3 verdades, que podem ser completamente distintas umas das outras:
- a minha
- a da outra pessoa
- o que realmente aconteceu

A palavra chave aqui é verdade: não as encaro como fantasias, ilusões ou epifanias religiosas.
Não se trata de pensar "ok, a outra criatura está completamente alucinada. Deixa-me dar-lhe um desconto."
Trata-se de considerar que a outra pessoa, com o seu ponto de vista radicalmente diferente do nosso, se caso fôr, tem tanta razão como nós.

Esta forma de ver os conflitos ajuda a manter a calma, a ouvir os outros lados e a dialogar para se encontrar uma solução.
Por vezes, acontece também que a única solução é concordar em discordar e não há mais nada a fazer. Nunca disse que a técnica era perfeita!
Também não retira aquele nervoso miudinho que começa na boca do estômago e parece que quer sair pela garganta, sempre que entro na arena do conflito. Para esse ainda não descobri a cura mágica. Mas lá chegaremos.
Agora que esta técnica traz melhor karma, ai isso traz. Ou tem que trazer. Senão vamos ter problemas...
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